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domingo, 20 de março de 2011

A Confissão Final

   "Os anos se passaram, meu caro Manuel Valadares. Hoje tenho quarenta e oito anos e às vezes na minha saudade eu tenho impressão que continuo criança. Que você a qualquer momento vai me aparecer trazendo figurinhas de artista de cinema ou mais bolas de gude. Foi você, quem me ensinou a ternura da vida, meu Portuga querido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas e as figurinhas, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum.
   Naquele tempo. No tempo de nosso tempo, eu não sabia que muitos anos antes, um Príncipe Idiota ajoelhado diante de um altar perguntava aos ícones, com os olhos cheios d'água:
   "POR QUE CONTAM COISAS ÀS CRIANCINHAS?"
   A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.
   
   Adeus!"


Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Música

    “Estavam a tocar a Sonata Kreutzer, de Beethoven. Conhece o primeiro presto? Conhece? – exclamou. – Ooh!... Esta sonata é uma coisa terrível. Precisamente esta parte. E a música em geral. O que é isso? Não compreendo. O que é a música? O que é que ela nos faz? E porque é que faz o que faz? Dizem que a música provoca um efeito sublime na alma… Mentira, absurdo! Provoca um efeito, um efeito terrível (estou a falar de mim), mas não sublime. Não age na alma de modo sublime nem humilhante, mas de modo excitante. Como lhe hei-de explicar? A música faz-me esquecer de mim próprio, da minha verdadeira situação, transporta-me para outro espaço qualquer que não é o meu: a música parece que me faz sentir o que na verdade não sinto, que me faz compreender o que não compreendo, parece que, com a música, posso fazer o que na verdade não posso. Explico-o assim: o efeito da música é como o do bocejo ou do riso; não tenho sono mas bocejo quando olho para alguém a bocejar; não tenho motivos de riso mas rio quando ouço alguém a rir-se.
     A música transfere-me de imediato para o estado de espírito do músico quando a compôs. Fundo-me na alma dele e, juntamente com ele, transporto-me de um estado para o outro, mas não sei por que o faço. O homem que compões, digamos, esta Sonata de Kreutzer, Beethoven, sabia o porquê desse seu estado, um estado que o levou a praticar determinados actos, logo um estado que tinha sentido para ele mas que, para mim, não tem qualquer sentido. Por isso, a música apenas excita, mas não determina. Bom, se tocam uma marcha militar, os soldados marcham, a música aqui determina alguma coisa; se tocam uma dança, dançamos, e tudo está definido; cantam uma missa, comungamos, também está definido. Mas aqui apenas há a excitação, e não se torna claro o que devemos fazer neste estado de excitação. Por isso a música é tão assustadora, por isso causa tantas vezes um efeito pavoroso.”

A Sonata de Kreutzer, Lev Tolstói (1889)